Tuiuti Encena a Travessia Iorubá na Última Noite de Desfiles

Mayara Lima
Mayara Lima, rainha da bateria da Paraíso do Tuiuti – Foto: Emerson Castro

A Paraíso do Tuiuti fará sua estreia na Avenida nesta terça-feira, 17 de fevereiro, marcando o início de uma das noites mais esperadas do Carnaval carioca. O “esquenta” começará às 21h45 e o desfile dará início às 22h, com um enredo que promete transmitir emoção, ancestralidade e uma profunda força histórica.

Com o título “Lonã Ifá Lukumi”, a escola levará ao Sambódromo uma narrativa que atravessa continentes. O enredo explora a tradição iorubá, que saiu da África e encontrou em Cuba um novo espaço de sobrevivência cultural, mesmo diante dos horrores da escravidão.

Ifá, orixás e a memória que atravessou o Atlântico

Na África, os iorubás cultivavam seus saberes por meio do Ifá, um oráculo que orienta destinos e ensina o equilíbrio da vida. Este conhecimento era transmitido não através de livros, mas pela oralidade, gestos e memória, sendo os babalaôs os responsáveis por interpretar sinais e manter viva a conexão com os orixás.

No entanto, essa história sofreu uma ruptura brutal quando homens e mulheres iorubás foram forçados a deixar suas terras e levados ao outro lado do Atlântico. Em Cuba, foram conhecidos como lucumis e enfrentaram trabalho forçado nas plantações de cana-de-açúcar e café.

Ainda assim, a fé permaneceu como um laço inquebrantável. Nas senzalas e engenhos, os lucumis reconstruíram sua religião em silêncio, preservando rituais e ensinando aos mais jovens os caminhos do Ifá, como forma de resistência diária.

Carlota Lucumí e a resistência que virou símbolo em Cuba

Em Matanzas, essa herança se fortaleceu e se transformou em luta. Foi lá que Carlota Lucumí liderou uma significativa revolta contra a escravidão, tornando-se um ícone de coragem do povo iorubá em solo cubano.

Matanzas também foi crucial para a consolidação do Ifá nas Américas. Remígio Herrera, conhecido como Adechina, nasceu escravizado, mas se tornou uma figura central na preservação dessa tradição. Após conquistar sua liberdade, retornou à África para se tornar babalaô e voltou a Cuba com a missão de estruturar o culto de Ifá.

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Para resistir à repressão colonial, os lucumis associaram seus orixás a santos católicos. Dessa união nasceu a Santería, também chamada de Regla de Ocha ou Regla Lucumi, uma estratégia necessária para manter a fé viva.

Dessa travessia forçada, surgiu uma nova casa para a tradição iorubá. Agora, a Paraíso do Tuiuti traz essa história de dor, resistência e reinvenção para a Avenida, abrindo a noite com um enredo que conecta o passado ao presente.